ARTIGO ESPECIAL – DIA MUNDIAL DO MEIO AMBIENTE

AUTODESENVOLVIMENTO E A QUESTÃO AMBIENTAL

A crise ecológica, com fortíssimos impactos em nossa sociedade, é uma crise do comportamento do homem. Somos (todos) parte de um agregado imenso de influências, via consumo, uso e alteração dos recursos, com um resultado sabidamente enorme. Mais que apenas o ambiente natural, afetamos o ambiente humano e cultural em que vivemos. O nosso agir no mundo diz muito sobre que tipo de pessoas e líderes somos, que tipo de negócios lideramos e qual a pegada que queremos deixar no mundo. No entanto, há uma generalizada ideia de que “isto não é comigo”.

Para falar sobre este assunto convidamos o Integral Master Coach™ e Integral Business Consultant, Marcelo Eduardo de Souza, empresário e fundador das empresas Âmbito Homem e Ambiente e Econoética, que se dedica aos temas de desenvolvimento organizacional, de líderes e pessoas.

Âmbito: De que modo as pessoas comuns e as empresas em geral veem seu papel na promoção da sustentabilidade?

Marcelo: Boa parte de nós, líderes, pessoas, organizações e negócios não cremos ter uma influência direta significativa sobre os elementos e fenômenos naturais, sejam eles o ar, a água, os animais, o solo, a vegetação ou o clima ou sua complexa inter-relação. Estão aí as crises de água, o aquecimento global, etc., e ainda assim é difícil mobilizar pessoas e organizações em torno do tema.

No entanto, o fato é que se queremos um mundo sustentável, precisamos olhar para como nós nos comportamos, e não só em relação à questão ambiental, pois sustentabilidade é mais que isto.

Na família por exemplo: pai e mãe são líderes ali. Queiram ou não, saibam ou não disto, responsabilizem-se ou não por isto. Eles influenciam dramaticamente o modo como os filhos veem o mundo, os valores e as preferências, refletidos em comportamentos. Do time de futebol `a orientação política e ao comportamento social; da abertura e empatia ao preconceito e à rigidez, boa parte do que as pessoas pensam, e como agem, vem daquela influência.

Preconceitos, egoísmo, mentiras, consumo excessivo são todos, no fundo, comportamento insustentáveis, porque não constroem paz duradoura e comprometem o futuro de muitas formas.

Âmbito: E como acontece a influência dos líderes no ambiente organizacional e nos negócios?

Marcelo: Dependendo de como o empreendedor ou líder se vê a si mesmo, às outras pessoas, aos negócios, ao mercado, ao mundo, tenderá a construir e influenciar o contexto organizacional para que se amolde à sua visão. Afinal, ele quer que sua obra reflita a si mesmo, e não que o contradiga.

O “clima organizacional” que existe; o “solo” ou base de valores sobre o qual constroem suas relações; a saúde das relações entre pessoas, equipes e setores; o funcionamento fluido ou rígido do “ecossistema organizacional” visto por dentro (ou sejam, os processos e pessoas que se inter-relacionam)-, bem como o modo como este sistema organizacional lida e se relaciona com o que está externo a ele – o mercado, os clientes, os concorrentes, outros stakeholders, tudo isto é fortemente influenciado – mas não totalmente determinado – pelas ideias, comportamentos e indicadores que os líderes usam, quer tenham consciência disto ou não.

Âmbito: Como o autodesenvolvimento do líder pode contribuir na atuação dele e na expansão do seu negócio de modo sustentável?

Marcelo: Não pode haver verdadeiro desenvolvimento organizacional sem líderes que se dispõem ao autodesenvolvimento. E por quê? Porque o autodesenvolvimento é o processo que abre a caixa preta de nossas crenças, motivações e receios desconhecidos e os traz à luz, permitindo que sejam mais bem conhecidos e, por vezes, substituídos por outros mais promissoras, mais capazes, não de nos transformar em “santos”, “imaculados” de uma horar para outra, mas de nos trazer o nosso “próximo nível possível”, um próximo nível que realize de modo mais claro, mais amplo, mais rico e mais efetivo aquilo que está na semente do que somos nós.

Como é que isto acontece? Como é que o empreendedor, o líder, pode alcançar gradativamente níveis mais e mais profundos de sua “semente” (essência) e, assim, aumentar o potencial da “árvore-organização” que ele cria e sustenta através de suas motivações, de seu propósito, de sua visão empreendedora, de seu desejo de contribuição?

O autodesenvolvimento é feito a caminhada de um explorador de montanhas, de um alpinista pioneiro. A cada novo nível alcançado, mais da paisagem se torna disponível para apreciação. Mais pode ser levado em conta. A “foto” fica mais ampla. Assim, aquele líder tem acesso a mais e mais de si e do mundo. Suas potencialidades, através desse processo, se revelam mais e mais, num processo não excludente, mas inclusivo, em que tudo o que estava presente antes e que continua útil é preservado, sendo acrescidas, por descobertas e desenvolvimentos, novas crenças e capacidades.

Isso significa que a organização, que é um “ecossistema aberto”, criada por esse novo líder, que emerge de si mesmo, renovado e ampliado a cada nova laçada de desenvolvimento, é um ambiente mais rico, mais inclusivo, mais capaz de perceber, compreender e resolver os desafios cada vez mais complexos que o ambiente da vida em geral traz.

Âmbito: O conhecimento pode ajudar a liderança a atingir o autodesenvolvimento?

Marcelo: O conhecimento é muito necessário, mas é insuficiente. Isso porque sem um arcabouço interno mais “espaçoso”, mais amplo, complexo e rico, a informação não pode fazer muito. De modo prático: é o autoconhecimento que nos permite perceber como usamos o conhecimento, nossas tendenciosidades de pensamento e de comportamento; como os sentimentos afetam a percepção, distorcendo-a; como crenças arraigadas e escondidas toldam a visão e distorcem o panorama que se olha, seja ele a si mesmo ou o que está fora de cada um. Mais e mais conhecimento sem autodesenvolvimento é mais ou menos como vestir roupa nova em corpo sujo.

Âmbito: Como o autodesenvolvimento da liderança pode contribuir para a questão ambiental?

Marcelo: A questão ambiental, quando entendida com mais e mais amplitude e complexidade através do autodesenvolvimento e do desenvolvimento do conhecimento, leva o líder, o empreendedor e cada pessoa a se perguntar: que tipo de ambiente, ou contexto, eu crio em torno de mim, com minha visão do mundo, meus comportamentos e meus indicadores preferidos? Como o bem-estar das pessoas que me circundam (portanto, sua saúde em sentido amplo) é afetada pelo contexto que crio ou ajudo a criar? O que minhas palavras, meus comportamentos, aquilo que digo e aquilo que não digo – mas demonstro de modos sutis – cria: acolhimento, expansão, cultivo, amorosidade, solidariedade, empatia, verdade, progresso ou contração, medo, conflitos, competição e apequenamento do humano em cada um?

Não é possível, de modo algum, resolver-se a questão ambiental ampla, planetária, que diz respeito aos grandes fluxos, sistemas e eventos ambientais, e continuar vivendo, cada organização, cada família, cada pessoa, num mundo pequeno e fechado sobre si mesmo. O enfrentamento de questões maiores, como a ambiental, é reflexo da existência de uma consciência e de uma ação consciente, individual, coletiva e sistêmica, que leva em conta mais, que se importa com mais daquilo que nos cerca, com os outros, que é genuinamente solidária e interessada em gerar em si, em torno de si, nos outros e para os outros, condições de progresso, de crescimento, de desenvolvimento de potencialidades capazes de enfrentar os crescentes – sempre crescentes – desafios com que a vida nos vai brindando à medida em que caminhamos na rota de encontro com o melhor de nossa semente individual e das melhores possibilidades de nosso jardim coletivo.