MUDANÇA…QUE MUDANÇA?

Todo mundo, a esta altura, já mudou a “folhinha”, o calendário, para 2016. Recebemos milhares de desejos de felicidades, paz, saúde, prosperidade e muito mais. Mas, tem um detalhe: ou já temos essas coisas, nalguma medida, ou necessitamos mais. Se necessitamos mais, de duas, uma: ou cremos que “mentalizando” bastante, tudo acontecerá, já que os votos das outras pessoas foram tão sinceros e que “o universo conspira”, ou sabemos que é preciso mais que isto. Sabemos que é preciso mudar alguma coisa, pois se a colheita decorre do semeio e do cultivo, é bastante provável que as mesmas ações e comportamentos vão produzir os mesmos resultados.

Na realidade, na maioria das vezes, é preciso mudar diversas coisas. E é por isso que não é tão simples, e desistimos, deixamos para o ano que vem, quem sabe… Mudar o que, então?

No nível pessoal e no nível organizacional, usamos, imperceptivelmente, “filtros de realidade”, que selecionam os fatos e buscam lhes dar sentido, buscam confirmação. É assim mesmo: se cremos que o mundo é cruel, selecionamos os fatos que confirmam nossa “hipótese”, como cientistas tendenciosos. Se acreditamos, no entanto, que as pessoas são projetos de anjos, da mesma forma ficamos com os fatos que confirmam nossa crença. Não é que não haja fatos que não apoiem nossas percepções. É claro que há. Mas escolhemos ficar meio cegos para aquilo que vai contra nossos pressupostos e preconceitos. Mudanças não acontecem quando ficamos com as mesmas ideias, quando vemos tudo do mesmo jeito. A mudança de “tela mental” é fundamental.

Para ficar em dois exemplos bem importantes: no nível pessoal, aquilo que eu chamo de “eu”, que tenho como certo e sólido (hábitos, valores, condicionamentos, crenças, etc. com os quais me identifico) limita minha mudança. Dizemos: “mas isso não sou eu”; “eu me orgulho mesmo é disso”; “eu sou é assim”.

Nas empresas, quando as pessoas e os líderes (especialmente) têm uma visão de que “para cada problema, existe uma solução”, descuidando da teia de complexidades que nos enreda dia a dia, pronto: vão procurar pessoas, consultores, conselheiros, etc., que confirmem isto, e vão afastar tudo que venha a colocar isto em cheque. Mas não deixarão, a cada virada e início de ano, de propalar as tão necessárias mudanças. Exatamente como fazemos em nossas vidas pessoais. Os fogos de artifício nos dão essa ilusão passageira de novidade… Novidade artificial.

É essencial mudar a consciência, então. Mas, se a mudança de consciência acontece apenas em uma pessoa; se ela está isolada, fica mais difícil. Aumentam muito as chances de mudança quando mais pessoas (amigos, parentes, colegas de trabalho, etc.) também estão buscando e desejando mudanças. Então, uma coisa é desejar, apenas por palavras, melhorias e tudo mais. Outra coisa é estabelecer um grupo que busca conscientemente e com disciplina (alguma, pelo menos) transformações, movimento. Fora disso, é mais do mesmo.

Infelizmente, porém, apenas a mudança das crenças, do modelo mental; apenas a “expansão da consciência” (individual ou de grupos) não garante a mudança. Nós e nossas construções culturais somos acentuadamente resistentes a mudanças, com mecanismos sutis e menos sutis de autopreservação (há boas razões para isto, aliás). Portanto, para que mudança haja, é preciso ancorar, estruturar a mudança com ações concretas de indivíduos e de grupos. Isto é muito interessante, porque se é verdade que a ação é frequentemente precedida de nova consciência, uma ação também pode gerar uma nova percepção e expansão de consciência. De toda forma, uma nova qualidade de ação ancora e amplia a nova consciência, aumentando o espaço real em que aquela consciência pode se expressar.

Uma das maneiras mais eficazes de “ancorar” a mudança é construir estruturas coletivas que reproduzem o novo estado de coisas. Um sistema educacional de qualidade (país); um bom programa de desenvolvimento de pessoas; processos enxutos, ágeis e inteligentes (instituições); uma boa rotina familiar, todos estes são bons exemplos. Sem dúvida, passado um tempo, essas estruturas se tornarão “antigas”, um verdadeiro “antigo regime” que resistirá à nova mudança. Mas assim é que as coisas vão.

Então, voltando ao nível pessoal, quando a gente pensa em mudar o governo – o que é bom, se o governo é mau -, mudar a escola, a família, a empresa, o marido, a esposa, os empregados, os líderes, é bom se responsabilizar também: ser a mudança que queremos ver no mundo (Gandhi). Ou seja: é mais fácil desejar mudança nos outros, querer mudar os outros, e permanecer como já somos – parte do próprio problema.

Não é pra desanimar não. É pra iniciar o Ano Novo com uma atitude de mais coragem interna. De olhar para si, olhar para os outros, olhar para as instituições, procurar ter mais claro o alcance de nossa ação e, dentro dele, agir de modo novo, com simplicidade, sem muito heroísmo. Fazer a nossa parte. Porque no fundo é muito simples: pois o Ano Novo acontece é em nós (Drummond).

Marcelo Eduardo de Souza, fundador e Líder da Âmbito Homem & Ambiente desde 1994. Vê os empreendedores como vitais para criar um mundo sustentado em valores éticos, contribuição e inovação. A partir de sua experiência e formação, vem desenvolvendo programas práticos de mudança pessoal e organizacional baseados em “Integral Coaching”e Educação.