MUDANÇA? NÃO! – A RESISTÊNCIA

Realizar mudanças envolve esforço em muitas frentes, como já comentei na coluna anterior. Muito se fala sobre: “por que mudar”? Menos se reflete sobre: “Por que não mudar”?

A mudança é um grande passo no desconhecido. É abandonar a segurança da posição atual – da imagem de si, da organização, da nação, etc. -, algo assombroso. A vida tem sua sabedoria, e a cautela quanto à mudança encerra uma delas (o impulso em direção à mudança encerra outra, complementar). Assim, a vida consulta o passado para ver se há registros, informações que permitam prever o que será da mudança – solicitada, desejada ou imposta. Como em geral não há, vem um movimento de cautela, de dúvida, de medo, de hesitação. Vem a resistência.

Tudo está montado em torno de um minucioso e elaborado sistema de crenças, de comportamentos que as expressam e da procura por sinais no ambiente que confirmem que está “tudo bem com o sistema”. Individualmente funcionamos assim; as organizações também.

Como pessoa e como organização, o que eu serei, se eu mudar, quanto estou tão cheio de mim mesmo, tão “bem” aqui, se está tudo “dominado”, se está tudo indo tão bem, aparentemente? O que será de tudo o que me acostumei a pensar que sou, que somos nós como organização? E minha autenticidade, minha imagem, tudo aquilo que até agora eu via como a expressão mais profunda de mim? Tudo aquilo de que me orgulho de ser, fazer e acreditar? Vai ser tudo jogado fora? Então, não, eu não quero mudar. As organizações também não querem mudar para dar um passo no nada de uma “não identidade”.

Os relacionamentos, como serão? Os amigos, colegas de trabalho, parentes, clientes, parceiros, que pensarão e dirão? Sofrerei ataques, já que me distancio? A perda de uma teia de relacionamentos formada e forjada a partir de um conjunto de pontos de vista, valores, gostos e símbolos em comum com outras pessoas é algo que poucos escolheriam em sã consciência.

Como vou me relacionar com o próprio ambiente? Vou me sentir um peixe fora d’água? Se gosto do calor, do mar e do plano, como viver na desordem e na montanha? Se a organização vivia num ambiente mercadológico “plácido”, como agora querer que ela aceite de bom grado o ambiente hostil, imprevisível? Ora, convenhamos: é mais fácil ficar por aqui mesmo.

Muito pior é se alguém quer nos mudar. Que legitimidade o líder tem para mudar o outro? Alguém perguntou se quero mudar? Mudar para que? A favor de que ou de quem? A favor só de quem quer me mudar? O que eu ganho com isso, que estão chamando de mudança? Que mudança é esta, que não entendo, e ninguém se esforça em explicar em linguagem que eu entenda? Quem disse que a mudança é necessária?

Ninguém muda ninguém, mas muitas vezes eu quero mudar o outro. O outro. E ele resiste, e está muito certo em resistir. Mudança do outro com base na minha vontade é pura e simples violência. É dizer que eu sei para ele, e ele não sabe. Mentira de quem não quer mudar a si mesmo e pensa que tem autoridade para mudar o outro.

Mais ainda: a mudança é muitas vezes colocada como se fosse dito que algo está “errado”, inadequado, fora de lugar ou de época. O grande equívoco na mudança é a tentativa de negar o que existia antes como imprestável. Ocorre que, na vida pessoal ou organizacional, o estado de coisas que queremos mudar sempre tem seus aspectos positivos, por isso é preciso honrar o estado anterior em tudo aquilo que ele traz de valioso para abrir espaço para mudanças consistentes, que integram e transcendem a situação anterior. Pretender mudanças como simples ruptura, negando totalmente o que há de bom e positivo na realidade a ser mudada (o que eu ou a organização fomos até aquele momento), tende a transformar-se em aventuras fadadas ao fracasso ou nas quais a mudança é só de aparência, não tem profundidade e enraizamento. Principalmente quando quem fala não quer mudar.

Vejamos agora a dicotomia: fazer mais força pela mudança ou trabalhar com as forças que se opõem a ela? Frequentemente, não há muito mais a fazer numa situação que estagna no processo de transformação, a não ser observar o que está travando e procurar lidar com elas. Uma crença contrária muito potente, minha ou coletiva, um (grupo de) interesse (s) específico dentro da organização sendo contrariado, um hábito arraigado, um privilégio atingido…. Reconhecer, com cautela e respeito, a própria legitimidade (do ponto de vista do outro) daquela resistência é fator essencial para a promoção da mudança. Qualquer coisa diferente disso é tentativa vã.

“Viver é muito perigoso”, dizia o jagunço. Mudar também. “Navegar é preciso, viver não é preciso”; acrescenta o marinheiro. Mudar também não é preciso. Mudar é lançar-se no espaço-vazio-e-cheio-de-incertezas. Há que cultivar asas que sustentem o voo sem perder o senso de direção.

Marcelo Eduardo de Souza, fundador e Líder da Âmbito Homem & Ambiente desde 1994. Vê os empreendedores como vitais para criar um mundo sustentado em valores éticos, contribuição e inovação. A partir de sua experiência e formação, vem desenvolvendo programas práticos de mudança pessoal e organizacional baseados em “Integral Coaching”e Educação.