CORRUPÇÃO: QUEM CORROMPE O CORRUPTO?

Ética Empresarial (PARTE I: A EMPRESA)

O setor privado pode se constituir em poderoso instrumento de mudança social e cultural. Dotar empresas de propósito e humanidade tem e terá, cada vez mais, um impacto positivo profundo no conjunto da sociedade. O momento atual brasileiro é especialmente adequado para tal discussão.

Sabe-se que, ao lado de educação, saúde e outros, a corrupção na esfera pública é “o tema” das preocupações da população, por seu efeito destruidor de perspectivas e sonhos. Nesta hora, é importante perguntar: se os corruptos são corrompidos, quem os corrompe?

Raízes e ramificações da corrupção. Papel do setor privado.

Parte da resposta é: cada um deles se corrompe a si mesmo por não ter valores e princípios firmes o suficiente. Também é verdade que há por toda parte uma “cultura”, um ambiente de corrupção. Já que todos fazem isto…. E há um arcabouço institucional – sistema político, financiamentos, brechas nas leis, impunidade, etc. – a favorecer o jogo desde as Caravelas.

Infelizmente, no entanto, não é só na esfera pública que as pessoas gostam de levar vantagens indevidas. A esfera privada também tem sua parte de responsabilidade. O que há no presente ambiente empresarial que favorece – mas não causa isoladamente – os comportamentos menos honestos e menos transparentes, tanto de parte de pessoas de dentro quanto de fora das organizações?

O Resultado: é só ele que importa?

No alto da lista está a noção, entendida de modo muito restritivo pela maioria de empreendedores e líderes, de que a empresa existe mesmo é para gerar resultados – lucros, seja dito claramente. Ou seja, na hora H, o que importa mesmo é o resultado. Ponto. Esta crença – poderosíssima, quase onipresente, quase “religiosa” na sua força, determina comportamentos empresariais nem sempre os mais confessáveis por parte de órgãos de decisão, de líderes individuais e mesmo de colaboradores. (Já falei, noutro artigo, do lucro e do propósito como possíveis motivadores).

Que comportamentos decorrem dessa crença quando levada a ponto de quase cegueira? Atitudes aéticas em face de clientes (de quem se deve extrair o dinheiro), fornecedores (cujo sangue pode ser sugado até eventualmente a falência), concorrentes (que devem ser combatidos como no campo de guerra), colaboradores (que deveriam agradecer a oportunidade de trabalho e, portanto, não fazem mais que sua obrigação), governo (evitando tributos e regras), sociedade, etc.

As Crises e o “DNA” das Empresas

São tempos de crise, e as crises são os melhores momentos para se aferir o “DNA” das empresas, porque nas dificuldades aflora o que há de menos nobre, que fica escondido. Vamos buscar pretextos para demitir pessoas, ainda que os números não indiquem tal necessidade? Vamos ludibriar clientes de todas as maneiras possíveis? Vamos deixar de pagar, ou empurrar ao máximo, as dívidas com fornecedores? Vamos ameaçar fechar? Mais ainda, nas olimpíadas do sucesso empresarial, recorreremos ao “bom relacionamento”, ao financiamento daqueles que se “comprometem” com a empresa – à corrupção, enfim? Assim, a medalha de ouro da corrupção traz de um lado o corrupto; de outro, o corruptor. Dinheiro, poder, influência são a moeda de troca.

O fator por detrás de todas essas atitudes é a quase absoluta predominância da crença de que é o resultado, o lucro, “A Coisa” que importa. Para além dos discursos.

Para surfar na onda da mudança verdadeira

Não é simples, para uma empresa, desvencilhar-se da armadilha daquela crença. É complexo.

Além da mudança da crença quanto a “o que realmente importa” (e outras), é preciso considerar com coragem, profundidade e serenidade tendências do mercado (seu e outros) e do mundo em geral, o que os clientes estão dispostos a bancar (são empresas ávidas por extrair o máximo de seu negócio?), a capacidade efetiva da organização de se reinventar, e a que ritmo, enfim, muitas, muitas e muitas coisas. Determinação e ousadia, mas também, plano, paciência, ação efetiva, flexibilidade e bússolas confiáveis…

Para que? Para que as tentativas de mudanças, se frustradas, não venham a ser mais uma demonstração de que, infelizmente, só o que funciona é “aquela crença” e os comportamentos que dela brotam. E que nossas empresas não tenham que sacar a velha justificativa: “mas todo mundo faz igual; esse é o jogo”.

Marcelo Eduardo de Souza, fundador e Líder da Âmbito Homem & Ambiente (desde 1994) e da EcoNoética Educação e Desenvolvimento (www.econoetica.com.br). Vê os líderes e empreendedores como vitais para criar um mundo sustentado em valores éticos, contribuição e inovação. A partir de sua experiência e formação, vem conduzindo programas práticos de mudança pessoal e organizacional baseados em “Integral Coaching”e Educação.