CICLOS, MUDANÇA E RENOVAÇÃO. EVIDENTEMENTE.

Disso ninguém duvida: vivemos tempos de profundas mudanças e transformações. Como se estivéssemos dentro de um vórtice que se movimenta caoticamente, mudam os comportamentos, os pensamentos, os valores, as relações, as culturas, a tecnologia, a economia, tudo. É um mundo complexo, incerto, veloz, assustador até.

Será que sempre foi assim? Está piorando? Está melhorando?

Dentro desse quadro geral de mudança, muitos, perplexos que estão, veem até mesmo retrocesso. Sim, pois como pode ser que se matem tantas pessoas por motivos tão sem importância, como dizem os noticiários? E a corrupção e outros crimes horríveis? Que dizer das extinções em massa ou do aquecimento do planeta? O futuro pode não ser tão brilhante, diriam.

Para outros, não: estamos participando de um claro processo de evolução. Menos pessoas sofrem da humilhação da fome; mais corruptos são denunciados; as pessoas estão mais liberais em pensamentos e comportamentos. A economia global, entre avanços e recuos, avança. Quanto ao noticiário, dizem, há uma parcela da população que consome notícias “ruins” com avidez, e a escala e interconectividade do mundo tornam ações grotescas cada vez mais “espetaculares”. Em meio ao caos, uma nova e mais avançada ordem surge, argumentam.

E as pessoas, individualmente? Em meio à confusão, ao processo geral que ou avança ou recua, elas seguem vivendo, e a vida real cotidiana tem ares de coisa cíclica. Todo ano tem escola de filhos, ou própria, pra pagar, contas, compromissos, aniversários, Natal (ou seus semelhantes em culturas não cristãs) e Ano Novo. Todo ano traz troca de presentes, abraços, reencontros, desejos e promessas novas – que se repetem, muitas vezes: comer menos, praticar esporte, melhorar os relacionamentos, estudar e trabalhar mais (ou menos), ter mais tempo para lazer e família.

O fato é que, de ciclo em ciclo, passam-se os anos, os bebês tornam-se crianças; estas, adolescentes; vêm os jovens, os adultos jovens e os mais maduros, e assim por diante, até que um dia termina. Então, existe uma clara impermanência na permanência, ou uma permanência de impermanência. E assim, o ciclo revela a mudança, o movimento que está no centro da natureza das coisas. Claro está que mudanças não são apenas numa direção: a montanha que se eleva do fundo do mar, árida incialmente, pode vir a ser uma terra de florestas um dia, e com o tempo vai sendo erodida até submergir no mar novamente. As culturas e suas ideias, valores e realizações surgem, se desenvolvem e colapsam. Pessoas nascem, se desenvolvem e morrem. Das cinzas do que morre algo novo – diferente, não necessariamente pior ou melhor – encontra seu caminho e restabelece o ciclo e o processo.

Ciclo, mudança e renovação. Evidentemente.

Então, há quem veja que as coisas pioram e quem ache que melhoram. “É muito evidente”, “evidentemente”, dizemos todos, embriagados de nossas razões, de nossos olhares, imersos em nossas verdades, premissas, convicções, experiências, tradições e ciências.

Como ouvi um professor certa vez dizer: evidente mente. O que é muito “evidente”, em geral, mente. Mente não porque seja mentira, mas porque é uma verdade, mas uma verdade parcial, uma parte de uma verdade maior que aquela.

Uma boa e difícil possibilidade de fim de ano, um presente que podemos nos dar de Natal e continuar desfrutando no Ano Novo, nas nossas vidas pessoais e também nos relacionamentos, nas empresas, áreas públicas e na sociedade em geral, é a decisão de começar a duvidar de nós mesmos um pouco mais. Porque se toca uma música triste e alguém me pede uma opinião, eu “sou” de um jeito. Pouco depois já é um rock bem animado e estou diferente. Logo antes do almoço, com fome, meio mal-humorado, acho uma coisa, mas depois, saciado, já vejo diferente. Antes de dormir, uma coisa; logo ao acordar, outra. Se me nasce um filho, tudo está bem; se me falta um ente querido, as coisas já parecem meio cinzas. Quem é esse que acha que “é evidente”? Não é uma pergunta interessante?

Então, já que sozinho é muito difícil, é melhor aproveitar as Festas e tentar se acostumar a temperar suas ideias, percepções, opiniões e verdades com as dos outros. Assim, nem tudo será tão branco ou tão preto, nem tudo cinza. No ajuntamento de cores que cada um traz, a cada momento e situação, pode começar a emergir algo mais claro para todos, algo mais rico, que reúne mais partes, menos evidente.

Nisso todo mundo ganha: tradições saudáveis se fortalecem, méritos pessoais e conquistas se potencializam, comunidades se aglutinam e prosperam. Ou alguém duvida?

Marcelo Eduardo de Souza, fundador e Líder da Âmbito Homem & Ambiente desde 1994. Vê os empreendedores como vitais para criar um mundo sustentado em valores éticos, contribuição e inovação. A partir de sua experiência e formação, vem desenvolvendo programas práticos de mudança pessoal e organizacional baseados em “Integral Coaching”e Educação.