Ano Novo, Governo Novo, Negócios Sustentáveis

Empresas sustentáveis têm objetivos permanentes de entregar valor aos seus investidores, clientes, colaboradores, parceiros, comunidades e sociedade, e por isso não mudam suas decisões estratégicas apenas ao sabor dos humores de governos que vêm e vão. Porém, e felizmente, sabe-se que a atual mudança de comando do Brasil está cercada de boas expectativas, e isso não é pouco. A confiança da população disparou, informam-nos as manchetes de todos os grandes jornais do País. No mercado, o otimismo é um pouco mais comedido, mas consistente, já que se sabe, por manifestações concretas – montagem de equipes de trabalho do Superministério da Economia, por exemplo – que existe uma clara intenção de estimular a economia via mais capitalismo e menos Estado. As expectativas ficam por conta de reformas vitais para deixar deslanchar as iniciativas dos agentes econômicos.

Por isso mesmo, nas empresas, mais do que nunca, é necessário manter o que está indo bem e aprofundar a gestão da sustentabilidade do negócio, integrando neste conceito temas – qualidade, meio ambiente, compliance, responsabilidade socioambiental, análises de riscos etc – que são colocados separados na teoria e também na prática empresarial. Eles são, na verdade, expressões de necessidades de diferentes atores envolvidos na vida da empresa, ou ainda, de riscos e oportunidades de diversas naturezas que nascem da vida real, dos processos reais que acontecem na organização, seja uma reunião sobre a estratégia, a produção, uma contratação de fornecedores ou uma venda ao cliente.

É preciso ter lucidez e saber de que forma os objetivos organizacionais se traduzem para cada atividade específica. Em cada ação é preciso guardar e viver efetivamente os valores organizacionais. Trata-se de perceber que reforçar a conexão da marca com os clientes, por meio de uma entrega no mínimo de acordo com o que foi prometido; que a recusa tranquila e consistente a qualquer tipo de conchavo ou vantagem baseada em relacionamento com agentes públicos ou privados; que o estabelecimento de processos limpos, inteligentes, que mitiguem e eliminem efeitos ambientais danosos a pessoas e ao ambiente, tudo isso são expressões da mesma marca: a marca de um negócio sustentável.

Mas como assim? O que isso tem a ver com a mudança de comando do governo e da economia? O que os novos mandatários sinalizam a respeito?

Está claro que o aprofundamento, na prática, da noção de negócio sustentável, em base sistêmica e integrativa como estamos falando, tem a ver com propostas ou sinalizações do novo governo – que propõe um país moderno e progressista na economia -, mas também se relaciona a fatos que já vinham ocorrendo na sociedade brasileira, que desaguaram na escolha de um novo governo sobre o qual recai uma enorme expectativa e igual esperança. Senão, vejamos.

Aí está a Operação Lava-Jato a destruir a reputação de empresas que entabulam negócios menos transparentes. E ela vai continuar. Até porque o novo governo se coloca, claramente, como apoiador desse processo e alça figura de destaque à condição de ministro. Que a gestão de compliance das empresas seja a expressão de valores organizacionais reais, demonstrados acima de tudo pelos líderes máximos das organizações, chegando aos gerentes e ao pessoal da faxina e do chão de fábrica.

Aí está o mercado, interno ou externo, com suas exigências de qualidade. E vai continuar. E aumentar. Que a entrega de valor ao cliente, dentro, no mínimo, daquilo pelo qual ele paga, seja um compromisso pessoal de cada envolvido – líderes à frente – e ilumine os processos de ponta a ponta.

Aí estão o mercado interno e externo, a sociedade e o governo, demandando desempenho socioambiental. E isso vai continuar, porque isso é parte do “espírito do tempo” (Zeitgeist). Que a gestão socioambiental evite o desperdício de vidas, de dinheiro e de recursos, dosando com sabedoria prática os diferentes interesses, todos relevantes, envolvidos no tema socioambiental.

Aí está, e estará sempre, o mundo complexo, ambíguo, competitivo, caótico, a exigir soluções inovadores de negócios – produtos, serviços, processos – e a reinvenção do modo de ser das pessoas, em especial dos líderes empresariais, chamados a apresentar respostas a equações impossíveis e desafios sem precedentes.

Naquilo que o novo governo estiver de acordo com o “espírito do tempo” que corre, o mercado o seguirá. Mas se não for assim, se em palavras e ações o governo, sendo novo, promover o velho, o mercado terá a sabedoria de ir em frente, pois o mercado é o mundo, é vida que segue. As empresas sabem que precisam estar à frente do processo, promovendo o progresso e mostrando caminhos.

Negócios sustentáveis, se sustentáveis são, promovem e apoiam o novo. Seja o governo ou o mundo.

Marcelo Eduardo de Souza – Advogado, Engenheiro Florestal, MSc. Integral Master Coach, Sócio Fundador e Diretor da Âmbito Negócios Sustentáveis Ltda