A Questão Ambiental em 4 Dimensões

É bastante comum ouvir conversas e discussões procurando identificar o que seria o mais importante para se resolver a questão ambiental (e outras, aliás).

É tudo uma questão de consciência, dizem alguns. Para estes, basta que cada indivíduo se conscientize de que é importante preservar recursos, reverenciar a vida, respeitar verdadeiramente os seres, também os humanos, e pronto. Dentro desta concepção, a realidade seria como que um reflexo daquilo que sentimos, pensamos, ou seja, projeção externa e material do mundo interior de cada indivíduo. Há muito de verdade nesta posição. Mas ela é uma verdade parcial.

Para outros, não. São os comportamentos das pessoas, individualmente consideradas, que importam. De que adianta eu dizer que sou “consciente” se não ajo de acordo com essa consciência? O que importa, aqui, é a mudança de comportamento de cada pessoa. Se eu recolho meu lixo; se meu vizinho passa a economizar água; se o diretor da empresa compra um carro mais econômico, se o presidente do país planta algumas árvores, pronto. A mudança de comportamento individual é fundamental para a solução da questão ambiental (e de muitas outras). Portanto, poucos duvidariam dessa verdade de que a mudança comportamental é chave para resolver a questão ambiental. Mas ela não basta.

Ninguém é uma ilha no mundo. Ao contrário, seres humanos somos seres sociais, gregários. De que adianta eu ter consciência ambiental, se os valores que estão subjacentes à minha consciência (cuidado, respeito, solidariedade, amor, quaisquer que sejam) não forem compartilhados por mais pessoas? Veja: isso não é uma questão de somar os indivíduos que são conscientes; é uma questão de que há um compartilhamento, em comunidade, daqueles valores.De fato, a mudança cultural, ou no nível daquilo de imaterial que se compartilha, é uma alavanca para as grandes mudanças. Todos sabemos que uma cultura de desperdício influencia as pessoas ao consumo desenfreado. Da mesma maneira, uma cultura de respeito deve também ajudar que pessoas sejam respeitosas.Quem ousaria tirar a razão dos que dizem que a mudança cultural é que tem que ser buscada? Ela é uma verdade. Apenas que também é uma verdade parcial.

Se não existirem vias de transporte, sistemas de esgoto e tratamento sanitário, locais especiais de destinação de lixos e resíduos, políticas públicas diversas, indo desde a simples autuação e repressão até os mais diversos tipos de incentivos a comportamentos ambientalmente positivos, dizem os que veem como essencial a presença de estruturas e sistemas que levem a resultados ambientalmente adequados, de nada adianta. Um exemplo seria o caso em que você separa o lixo de sua casa, coloca em recipientes diferentes, específicos, e o caminhão da coleta vem e junta tudo de novo e lança em local inadequado, fazendo valer de nada seu esforço. Então, é forçoso reconhecer esta verdade: a de que estruturas e sistemas coletivos são fundamentais para equacionar a questão ambiental, inclusive por uma questão de escala. No entanto, supor que somente isto seja “o mais importante” é crer numa verdade parcial.

A realidade em geral se apresenta nessas quatro dimensões aqui comentadas. Há os indivíduos, e estes apresentam duas dimensões bem distintas: seu mundo interior (pensamentos, sentimentos, anseios, propósitos, etc.) e seu mundo exterior (seu corpo, seu comportamento, suas ações). Há também as coletividades, também com seu aspecto interior (tudo aquilo que é imaterial e se compartilha – crenças, valores, projetos, visões) e outro exterior (as estruturas e sistemas materiais, concretas, criados coletivamente).

A mudança ambiental deve acontecer em todas essas quatro dimensões. Indivíduos conscientes que agem de acordo com tal consciência. Coletividades que compartilham uma visão de mundo respeitosa, solidária, responsável e que constroem concretamente estruturas e sistemas que refletem aquelas crenças e valores.

Qual aspecto vem primeiro? Isso é mais que “o ovo ou a galinha”, pois temos quatro aspectos. Todas essas dimensões se influenciam mutuamente. Pensar assim e não se deixar perder no debate de “o que é mais importante” é uma mudança em si mesma necessária para construir um mundo de mais somas e multiplicações que de divisões e perdas. E o ambiente agradece por esse novo jeito de ver, agir, avaliar.

Marcelo Eduardo de Souza, fundador e Líder da Âmbito Homem & Ambiente desde 1994. Vê os empreendedores como vitais para criar um mundo sustentado em valores éticos, contribuição e inovação. A partir de sua experiência e formação, vem desenvolvendo programas práticos de mudança pessoal e organizacional baseados em “Integral Coaching”e Educação.